sexta-feira, 30 de julho de 2021

Respeito - Parte 1

Livro: Os Prazeres da Alma 
Autor Espiritual: Hammed

Capítulo 7

Somente optando pelo autorrespeito é que conseguiremos o respeito alheio. Encontraremos nos outros a mesma dignidade que damos a nós mesmos.

De que maneira as pessoas nos tratam? Sentimo-nos constantemente usados ou desrespeitados? Às vezes, permitimos que os outros nos tracem metas ou objetivos sem antes nos consultar? Sabemos distinguir quando estamos doando realmente ou quando estamos sendo explorados? Respeitamos nossos valores e direitos inatos? Costumamos representar papéis de vítimas ou de perfeitos?

A pior situação que podemos viver é passar toda uma existência sem nos dar o devido amor e respeito, fazendo coisas completamente diferentes do que sentimos. 

Nossos sentimentos são parte importante de nossa vida. Se permitirmos que eles fluam em nós, então saberemos o que fazer e como nos conduzir diante das mais variadas situações do cotidiano.

Em virtude disso, não devemos nos esquecer de que, quando nos respeitamos plenamente, mostramos aos outros como eles devem nos tratar.

Se nós não nos aceitarmos, quem nos aceitará? Se nós não nos amarmos, quem nos amará?

Marcos relata em seu Evangelho a seguinte orientação: "Pois ao que tem será dado, e ao que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado." (1)

Realmente, "será dado" (respeito) ao que se respeita e não "ao que não tem ou pensa ter". Assim funciona tudo em nossa vida íntima - "temos o que damos". Devemos esperar dos outros a mesma dignidade que damos a nós mesmos.

Examinemos nossos sentimentos e atitudes e nos perguntemos: Por que permito que me tratem com desconsideração? O que estimula os outros a se comportarem com desprezo em relação à minha pessoa?

Se nós não nos autorresponsabilizamos pela forma como somos tratados, continuaremos impotentes para mudar o contexto penoso em que estamos vivendo. É muito cômodo culpar os outros por qualquer desilusão ou sofrimento que estejamos passando. Não é fácil aceitar a responsabilidade pelas nossas próprias ilusões e desenganos.

Quando renunciamos ao controle de nós mesmos, com toda a certeza outros indivíduos tomarão as rédeas de nossa vida.

Somos iguais perante os olhos da Divindade. "(...) todos tendem ao mesmo fim e Deus fez suas leis para todos. Dizeis frequentemente: o sol brilha para todos. Com isso dizeis uma verdade maior e mais geral do que pensais." (2)

Realmente "o sol brilha para todos", pois "(...) Deus não deu, a nenhum homem, superioridade natural, nem pelo nascimento, nem pela morte (...)."

Não somos nem melhores nem piores que ninguém. Ao recusarmos o respeito a nós mesmos, estamos abdicando do direito de exigi-lo. Sem senso de valor individual, nos sentiremos diminuídos diante do mundo e destituídos da habilidade de dar e de receber amor.

O mais valioso tesouro que possuímos é a dignidade pessoal. Não é lícito sacrificá-la por nada ou por ninguém. Quando autorizamos os outros a determinar o quanto valemos, uma sensação de vazio nos toma conta da alma.

O autodesrespeito é um grande desserviço a nós mesmos. Quando ele se instala em nossa casa mental, passamos a não mais prestar atenção aos avisos e intuições que brotam espontaneamente do reino interior. As vozes de inspiração divina são sempre ideias claras, providas de síntese e simplicidade, que a Vida Providencial murmura no imo de nossa alma.

Quando nos respeitamos, somos livres para sentir, agir, ir, dizer, pensar e saber o que autodeterminamos, confiantes em que, se estivermos prontos, no tempo exato o Poder Superior do Universo nos dará todo o suprimento, todo o apoio e toda a orientação para cumprirmos o sublime plano que Ele nos reservou.

Somente optando pelo autorrespeito é que conseguiremos o respeito alheio. Encontraremos nos outros a mesma dignidade que damos a nós mesmos.

1. Marcos, 4:25

2. Questão 803 - Todos os homens são iguais diante de Deus? 

"Sim, todos tendem ao mesmo fim e Deus fez suas leis para todos. Dizeis frequentemente: O sol brilha para todos. Com isso dizeis uma verdade maior e mais geral do que pensais."

Nota - Todos os homens serão submetidos às mesmas leis da Natureza. Todos nascem com a mesma fraqueza, estão sujeitos às mesmas dores e o corpo do rico se destrói como o do pobre. Portanto, Deus não deu, a nenhum homem, superioridade natural, nem pelo nascimento, nem pela morte. Diante dele, todos são iguais.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Autoconhecimento - Parte 2

Livro: Os Prazeres da Alma 
Autor Espiritual: Hammed

Capítulo 6

Só tememos o que desconhecemos. O autoconhecimento requer um constante exercício, no reino do pensamento reflexivo, sobre as sensações externas e internas. Viver uma vida sem reflexão é como escutar uma música sem melodia.

Aqueles que não conhecem a si mesmos dificilmente terão um bom relacionamento com os outros. O ser humano deve afastar de sua vida hábitos e crenças que o tornam inconsciente da própria vida íntima. Só tememos o que desconhecemos. O autoconhecimento requer um constante exercício, no reino do pensamento reflexivo, sobre as sensações externas e internas. Viver uma vida sem reflexão é como escutar uma música sem melodia.

Examinando o Novo Testamento com os olhos da psicologia, chegamos à conclusão de que Jesus Cristo foi uma criatura extraordinária e fascinante, um psicoterapeuta por excelência, além de significativamente moderno. As palavras, os atos e a vida do Mestre possuem, sob muitos aspectos, um significado oculto que é desvendado por todos aqueles que possuem "olhos de ver e ouvidos de ouvir".

Narra-nos o apóstolo Mateus: "(...) ele dirigiu-se a eles, caminhando sobre o mar. Os discípulos, porém, vendo que caminhava sobre o mar, ficaram atemorizados e diziam: É um fantasma! E gritaram de medo. Mas Jesus lhes disse logo: Tende confiança, sou eu, não tenhais medo. Pedro, interpelando-o, disse: Senhor, se és tu, manda que eu vá ao teu encontro sobre as águas. E Jesus respondeu: Vem." (1)

A água é a imagem da dinâmica da vida, das energias e dos conteúdos desconhecidos da alma, das motivações secretas e ignoradas. Ela é o simbolismo da "sombra" (2), da vida inconsciente, ou "além-mar" de nossa existência de Espíritos imortais. A água representa tudo aquilo que está contido imperceptivelmente na alma, e que o homem se esforça para trazer à superfície porque pressente que poderá alimentá-lo e sustentá-lo seguramente.

O Mestre pairava sobre as águas, ou seja, dominava o lado escuro da natureza humana. Ele entendia o medo e a insegurança em que viviam os homens - efeitos da sombra pessoal e coletiva - e os motivos da desunião ou segregação da maioria das pessoas e dos grupos sociais.

Renegamos ou não percebemos de forma lúcida essa área oculta e profundamente influente que existe em nossa intimidade. Por essa razão, projetamos nossa sombra "lá fora", nas qualidades ou nas atitudes desagradáveis dos outros. Quando sentimos grande admiração por uma criatura, ou quando reagimos intensamente contra alguém, isso talvez seja a manifestação de nossa sombra.

A negação da sombra faz com que abominemos as deficiências alheias, evitando vê-las em nós. Também atribuímos aos outros nossos potenciais não desenvolvidos, fazendo deles heróis ou gurus - nutrimos enigmáticas alianças ou paixões desmedidas.

A sombra surge sempre em nosso cotidiano; por exemplo, quando lançamos nossas emoções ocultas, nossa fragilidade, nossa insegurança e nossos medos em algo ou alguém.

"Diabo" - do grego diábolos e do latim diabolus - significa literalmente "o que separa", "o que desune". A "separação" é que nos impede de ver a unidade que há em nós e a unidade de todos nós, porquanto dificulta a percepção dos diferentes aspectos evolutivos em nossa intimidade. Ao aceitarmos nossos "opostos" (autoritarismo-subserviência, bajulação-desprezo, futilidade-desleixo, artimanha-credulidade, possessividade-insensibilidade), aprendemos o ponto de equilíbrio das polaridades - é admitindo os lados que chegamos ao meio-termo.

Ao aceitarmos a "unidade" ou o "caminho do meio", começamos a dar fim à nossa rivalidade com nós mesmos e com os outros. Ficamos a favor de nossa realidade, ao invés de hostilizá-la.

Nossa visão de mundo ainda depende dos lados positivo e negativo; da nossa ambivalência de seres humanos em evolução; em outras palavras, da coexistência de atitudes, tendências e sentimentos opostos inerentes à condição humana.

A qualidade mediadora para unir os opostos e que nos leva ao equilíbrio se chama amor. O amor une as pessoas e, ao mesmo tempo, as interliga com as outras criaturas.

Não podemos projetar nossas atitudes rudes, sombrias, insuportáveis e complicadas sobre entidades exteriores, como os "demônios". A característica básica daqueles que acreditam em seres criados especificamente para o mal é buscar constantemente um "bode expiatório" para tudo na vida. As criaturas que assim creem precisam, no fundo, negar seu lado fraco ou impulsos inaceitáveis, culpando o mundo pelo desequilíbrio que elas não veem em si mesmas. São consideradas caçadoras crônicas de bodes expiatórios e quase sempre escapam de suas responsabilidades, atos e consequências com uma projeção do tipo: "O diabo ou os maus espíritos me levaram a fazer ou falar isso."

O Espiritismo ensina que o desequilíbrio reside na intimidade de cada um de nós. Quando temos a coragem de ouvir os "demônios" interiores - que simbolizam alguns aspectos de nossa sombra, isto é, aquelas tendências em nós que mais tememos e das quais fugimos -, atingimos com mais facilidade a auto melhoria. "Se houvesse demônios, eles seriam obra de Deus, e Deus seria justo e bom se houvesse criado seres devotados eternamente ao mal e infelizes? Se há demônios, eles habitam em teu mundo inferior e em outros semelhantes. São esses homens hipócritas que fazem de um Deus justo um Deus mau e vingativo (...)" (3).

"(...) ele dirigiu-se a eles, caminhando sobre o mar. Os discípulos, porém, vendo que caminhava sobre o mar, ficaram atemorizados (...)." O Mestre de Nazaré nos convida a andar sobre as águas, a não sentir medo de olhar para dentro de nós mesmos e de sondar as nossas profundezas. A sombra parece ser um "espectro horrível" que nos habita o íntimo; no entanto, ao trazermos nosso lado escuro à luz da consciência, veremos que se trata apenas de nós mesmos, "viajores do Universo", carentes de aprendizagem e conhecimento acerca da Inteligência Divina que se manifesta dentro e fora de nós.

1. Mateus, 14:25 a 29

2. Nota da Editora - Ver a definição de sombra no capítulo "Afetividade".

3. Questão 131 - Há demônios, no sentido que se dá a esta palavra?

"Se houvesse demônios, eles seriam obra de Deus, e Deus seria justo e bom se houvesse criado seres devotados eternamente ao mal e infelizes? Se há demônios, eles habitam em teu mundo inferior e em outros semelhantes. São esses homens hipócritas que fazem de um Deus justo um Deus mau e vingativo, e creem lhe serem agradáveis pelas abominações que cometem em seu nome."

Nota - A palavra demônio não implica a ideia de Espírito mau senão na sua significação moderna, porque a palavra grega daimôn, da qual se origina, significa gênio, inteligência e se emprega para designar os seres incorpóreos, bons ou maus, sem distinção. (...)

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Autoconhecimento - Parte 1

Livro: Os Prazeres da Alma 
Autor Espiritual: Hammed

Capítulo 6

O autoconhecimento é a capacidade inata que nos permite perceber, de forma gradativa, tudo que necessitamos transformar. Ao mesmo tempo, amplia a consciência sobre nossos potenciais adormecidos, a fim de que possamos vir a ser aquilo que somos em essência.

O autoconhecimento nos dá a habilidade de saber como e onde agem nossos pontos frágeis e até a quem atribuímos nossas emoções e sentimentos, facilitando-nos compreender melhor os que nos rodeiam. Caminhar no processo do autoconhecimento significa desenvolver gradativamente o respeito aos nossos semelhantes, impedindo que façamos projeções triviais e levianas de nossas deficiências nos outros.

Apenas quando tivermos um considerável conhecimento de nós mesmos é que poderemos ajudar efetivamente alguém. Se desconhecemos nosso mundo interior, como poderemos transmitir segurança e determinação ou dar força aos outros? O autoconhecimento requer constante autorreflexão.

Muitos relacionamentos não dão certo porque as pessoas não olham para dentro de si mesmas, não percebendo, assim, seus pontos vulneráveis e suas limitações. Quando atenuamos ou amenizamos as críticas a nosso respeito e a respeito dos outros, estamos assimilando de forma verdadeira as lições que o autoconhecimento nos proporciona.

Não são os grandes conflitos que tornam nossas relações (de negócios, de amizade, de família, conjugais) malsucedidas, e sim um conjunto de "insignificantes diferenças", reunidas através de longo período de tempo. Cobranças, indelicadezas, petulância, insensibilidade, autoritarismo, desinteresse, impaciência, desrespeito - essas pequenas faltas no dia-a-dia podem destruir até mesmo as mais antigas e afetuosas convivências.

Embora não possamos perceber de forma clara e direta, lançamos na vida interpessoal pensamentos e emoções inaceitáveis. Eles formam nosso lado escuro - aquela área do inconsciente que governa e, ao mesmo tempo, dita as normas tanto nos confrontos desagradáveis como nos ímpetos de deboches e gracejos em nossos inúmeros relacionamentos.

Descobrimos o quanto nosso "eu oculto" está em plena atividade quando rimos exageradamente de uma pessoa que escorrega na rua, ou que se equivoca diante de uma palavra, ou mesmo quando ela sofre algum tipo de comparação sarcástica com ponto "censurado" do seu corpo.

Nossa "área sombria" é uma região inexplorada e indomada que atua de forma imperceptível em nossas ações e atitudes. Geralmente, é essa "área" que participa de nossas "supostas brincadeiras" e influencia com precisão o tipo de palavras engraçadas e picantes que deveremos usar nas piadas chulas, nas expressões maliciosas e zombeteiras.

A mensagem subliminar desse nosso "mundo oculto" aparece quando nos horrorizamos com o comportamento sexual das pessoas, recriminando e discriminando cruelmente raças, credos e grupos de "minoria".

Os demônios, na Idade Média, e igualmente as bruxas e hereges simbolizaram brutais projeções de nosso desconhecido "lado escuro". Suplícios e fogueiras, guilhotina e ferro em brasa são marcas que assinalaram a história da humanidade com os ferretes da nossa crueldade inconsciente. É surpreendente como nossas tendências desconhecidas sempre arrumam uma forma de se "dourarem" de princípios filosóficos, redentores ou salvacionistas.

O desconhecimento de nossa vida interior profunda nos conduz ao vale da incompreensão de nossos sentimentos para com nós mesmos e para com os outros. "(...) os Espíritos foram criados simples e ignorantes (...) Se não houvesse montanhas, o homem não poderia compreender que se pode subir e descer, e se não houvesse rochedos, ele não compreenderia que há corpos duros. É preciso que o Espírito adquira experiência e, para isso, é preciso que ele conheça o bem e o mal (...)." (1)

Projetamos nossa sombra quando "pegamos alguém para Judas" (2); quando denegrimos e julgamos a sexualidade alheia sem nos dar conta dos próprios conflitos sexuais. Ela não somente se manifesta em um indivíduo, mas pode exprimir-se em um corpo social inteiro: nas perseguições raciais (nazismo, apartheid, Ku Klux Klan e outras tantas) e nas chamadas "guerras santas" ou "religiosas". Em outras circunstâncias, na repugnância e no ódio visivelmente explícitos e sem controle revelados por meio de palavras e gestos violentos; na aversão ou irritabilidade diante de certas reportagens publicadas pelos veículos de divulgação; nas atitudes de cinismo e nas mais corriqueiras situações e acontecimentos da vida social; e também nas projeções satíricas ou maliciosas em presença de pessoas consideradas "diferentes". Já é tempo de não mais apontarmos o "cisco" no olho alheio.

Lembremo-nos de Jesus Cristo, o Notável Terapeuta de nossas almas, ao analisar os conflitos que atormentavam os seres humanos por não admitirem os diversos aspectos da própria sombra: "Assume logo uma atitude conciliadora com o teu adversário, enquanto estás com ele no caminho, para não acontecer que o adversário te entregue ao juiz e o juiz ao oficial de justiça e, assim, sejas lançado na prisão." (3)

Nossos piores inimigos ou adversários estão dentro de nós, não fora. É imprescindível nos reconciliarmos com os opositores íntimos, ou seja, enxergarmos com bastante nitidez nosso "lado escuro", para atingirmos paz e tranquilidade de espírito.

Não somos necessariamente aquilo que parecemos ser. O autoconhecimento é a capacidade inata que nos permite perceber, de forma gradativa, tudo que necessitamos transformar. Ao mesmo tempo, amplia a consciência sobre nossos potenciais adormecidos, a fim de que possamos vir a ser aquilo que somos em essência.

1. Questão 634 - Por que o mal está na natureza das coisas? Eu falo do mal moral. Deus não poderia criar a Humanidade em melhores condições?

"Já te dissemos: os Espíritos foram criados simples e ignorantes (115). Deus deixa ao homem a escolha do caminho; tanto pior para ele, se toma o mau: sua peregrinação será mais longa. Se não houvesse montanhas, o homem não poderia compreender que se pode subir e descer, e se não houvesse rochedos, ele não compreenderia que há corpos duros. É preciso que o Espírito adquira experiência e, para isso, é preciso que ele conheça o bem e o mal. Por isso, há a união do Espírito e do corpo (119)."

2. Nota da Editora: Expressão alusiva ao apóstolo Judas Iscariotes, aquele que traiu Jesus e que caiu na antipatia do povo. Até hoje, infelizmente, esse episódio é lembrado e o boneco que o representa é malhado e queimado no Sábado de Aleluia, em praça pública.

3. Mateus, 5:25

terça-feira, 22 de junho de 2021

Afetividade - Parte 3

Livro: Os Prazeres da Alma 
Autor Espiritual: Hammed

Capítulo 5

Tudo o que existe tem sua origem no amor - essência fundamental de todas as coisas que vivem sobre a Terra. A busca do amor é o principal anseio de todo ser humano.

A história da vida de cada criatura é um relato sobre seus antecedentes vivenciais; o conjunto de suas experiências pretéritas somadas às de sua existência atual. Quando um indivíduo conta sua história pessoal e única, estamos apenas ouvindo sua própria interpretação, filtrada por suas crenças, valores, argumentos, pressuposições, cultura, elementos de que ele se utiliza para nos apresentar seu modo de pensar e de ver o mundo.

Podemos contar muitos fatos e ocorrências sobre nós, dando maior importância a alguns aspectos e ignorando outros, ou mesmo selecionando diferentes atos e comportamentos que tivemos nas mais diversas ocasiões. Somos seletivos por natureza, e tudo o que falamos, pensamos ou fazemos tem certa relatividade quando comparado com outros momentos, situações ou fases evolutivas.

Cada um de nós possui uma individualidade original e exclusiva. Utilizando-nos de uma singela metáfora, podemos dizer: "Toda vez que Deus cria um Espírito, Ele quebra o molde."

A alma passa por um grande número de encarnações no curso dos séculos, sendo diversificadas suas experiências na área da afetividade. Como resultado disso, adquire um conjunto peculiar de conhecimentos, pelas inúmeras situações e ocorrências que vivenciou.

Não somos o que pensamos, somos o que sentimos. A busca do amor é o principal anseio de todo ser humano. Ele é legítimo e saudável, e nos incentiva ao despertar da inteligência e dos talentos inatos, a fim de criarmos, renovarmos e crescermos, quer no campo da religião, da filosofia, quer no campo da ciência, da arte e em outros tantos setores do conhecimento.

Tudo o que existe tem sua origem no amor - essência fundamental de todas as coisas que vivem sobre a Terra.

O ponto de partida das ações humanas é a alma - nosso mais profundo centro amoroso -, que transmite energeticamente a afetuosidade para nossos sentidos físicos periféricos, para o nível físico-sensitivo.

A aspiração do amor causa em inúmeros indivíduos uma sensação de inadequação ou medo; por esse motivo, eles a reprimem, de modo inconsciente ou voluntário. No entanto, apesar de tentarem recalcar ou "apagar" a emoção, eles nunca conseguirão silenciar por muito tempo o sentimento amoroso que flui da intimidade da própria alma.

Nosso grande equívoco é acreditar que o desejo de amar é motivo de fraqueza, vergonha, submissão ou domínio. Esse anseio, quando reprimido, acarreta consequências angustiantes e desastrosas, tanto na área física como na psicológica.

Os Espíritos não têm sexos "(...) como o entendeis, pois os sexos dependem do organismo. Entre eles há amor e simpatia baseados na identidade de sentimentos." (1)

A soma de todos os atos de nossa história de vida poderia ser resumida unicamente no fato de que não somos nem santos nem vilões, apenas criaturas em busca do amor. Por certo, poderíamos dizer que, apesar dos mais diversificados "pontos de vista" e "modelos de mundo" que possuímos, o desejo de amar ou a "identidade de sentimentos", repetimos, é o mais sublime propósito de todo ser humano.

Usamos mecanismos de evasão: por exemplo, a robotização - serviços automáticos sem prazer ou criatividade, - para compensar nossa insatisfação no amor, trabalhando incessante e exaustivamente. Em outras ocasiões, aspiramos à completa aprovação alheia de tudo que fazemos ou acreditamos, para preencher a sensação de falta e incompletude que toma conta de nosso universo afetivo.

Queremos ser compreendidos a qualquer preço, parecer perfeitos, importantes, impressionar as pessoas. A máscara é a vontade de ser aceito plenamente por todos; em última análise, querer forçar as pessoas a nos aceitarem, custe o que custar. A atitude de compreender e de amar só é satisfatória quando sincera e espontânea.

A concepção junguiana de sombra representa o modelo de tudo aquilo que não admitimos ser e que nos esforçamos por ocultar e/ou valores inconscientes e qualidades em potencial esquecidas nas profundezas de nossa intimidade, os quais precisamos despertar dentro de nós .

Nesse sentido, disse Lucas: "Pois nada há de oculto que não se torne manifesto, e nada em segredo que não seja conhecido e venha à luz do dia." (2)

Quando um indivíduo vai gradativamente tomando contato com os aspectos de sua sombra, ele se torna cada vez mais consciente de seus impulsos, emoções, sentimentos e atributos que ignorava ou negava em si mesmo. A partir daí, consegue perceber claramente nos outros os mesmos conteúdos inconscientes que não via ou não admitia em si mesmo. Afinal, pensa consigo mesmo: "Não me importo, todos somos iguais. Possuímos a mesma estrutura humana, só precisamos aprender achar o equilíbrio, pois a virtude está no caminho do meio".

No amor ou afetividade está incluída a habilidade de ver e reconhecer a relatividade da vida em toda a sua validade e perfeito equilíbrio. "Entre eles (os Espíritos) há amor e simpatia baseados na identidade de sentimentos".

A dignidade da pessoa humana não está fundamentada em "parecer amar", e sim em "amar verdadeiramente". O verniz encobre o mal, mas não o suprime; um sepulcro pintado de branco parecerá menos lúgubre, todavia continuará sendo um sepulcro.

O hipócrita dissimula ser o que não é, buscando no fingimento uma cobertura para continuar sendo aquilo que de fato quer parecer aos olhos do mundo.

No lugar em que o amor reina, não há imposição e repressão; onde a imposição e a repressão prevalecem, o amor está ausente. A autêntica afetividade está associada a uma ampliação de consciência e a um amadurecimento espiritual. Quem a possui aprende a ser caridoso, generoso, benevolente, deixando os outros livres não apenas para errar, para aprender, para discordar, mas também para amar, reconhecendo que as fragilidades que muitas vezes recriminamos nos outros podem ser as nossas amanhã. 

1. Questão 200 - Os Espíritos têm sexos?
"Não como o entendeis, pois os sexos dependem do organismo. Entre eles há amor e simpatia baseados na identidade de sentimentos."

2. Lucas, 8:17

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Afetividade - Parte 2

Livro: Os Prazeres da Alma 
Autor Espiritual: Hammed

Capítulo 5

No futuro, a religião superior ou natural só será fundamentada na mais afetuosa fraternidade e professada individualmente pela criatura que superou o "ser religioso" e desenvolveu em si o "ser religiosidade".

A vida é um processo evolutivo e todos somos "seres caminhantes" nesse processo. Ainda nos falta longo trajeto a percorrer para atingirmos o desenvolvimento total de nossas potencialidades inatas. As Mãos Divinas nos criaram perfectíveis (1), isto é, fomos concebidos potencialmente perfeitos. Já estamos prontos, concluídos; a Vida Providencial apenas espera nosso despertar, ou seja, agora só nos resta sair do sono da inconsciência de nós mesmos.

Na maioria das vezes, por ser tão vasto o campo do potencial humano, direcionamos nossa visão somente às informações, aos conceitos e às ideias pessoais e particulares. Não vemos claramente os processos interligados que fazem parte de uma mesma rede de relações invisíveis que ocorrem em nossos mundos interno e externo.

É oportuno recordarmos trecho do discurso do chefe indígena norte-americano Seattle: "Tudo o que acontece com a Terra acontece com os filhos da Terra. O homem não tece a teia da vida; ele é apenas um fio. Tudo o que faz à teia ele faz a si mesmo".

Esse pequeno texto sintetiza os pilares do que podemos chamar de "ecologia divina". Todo e qualquer ser vivo tem seu valor intrínseco, sendo os seres humanos somente um dos fios da imensa série de elos da vida. Essa foi a mais exata e essencial definição de fraternidade - como devemos nos relacionar no mundo.

É preciso termos uma "visão holística" (do grego holos: todo) de tudo o que nos rodeia. "O Criador está em tudo e em todos", mas Ele não pode ser circunscrito a nada. Assim como a assinatura do artista está em sua obra, Deus, igualmente, está presente nas suas criações através de suas leis divinas ou naturais. (2)

A fraternidade é o entrelaçamento sagrado entre as criaturas. Ela possui a condição de afetividade fecunda e frutífera; é a única e verdadeira forma de união humana. 

Uma tomada de consciência dessa natureza exige de cada um de nós uma mudança radical quanto ao modo de encarar as criações e criaturas. Essa maneira de ver e perceber a existência produz uma profunda conscientização de religiosidade sobre a realidade de quem somos e de como vivemos.

Se nós, criaturas humanas, considerarmos que o Universo é uma imensa malha interligada e agirmos de conformidade com esse princípio, não estaremos fazendo nada mais do que reforçar e vivenciar a essência da palavra religião (do latim religare: ligar novamente). Aliás, o Cristo veio ao mundo para religar os homens a Deus, e Ele assim se referiu à autêntica religião do porvir: "(...) Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade." (3)

No futuro, a religião superior ou natural só será fundamentada na mais afetuosa fraternidade e professada individualmente pela criatura que superou o "ser  religioso" e desenvolveu em si o "ser religiosidade".

O amadurecimento e o crescimento do indivíduo se fazem por meio da sucessão das existências corporais. Ela "estabelece entre os Espíritos laços que remontam às existências anteriores. Daí, muitas vezes, decorrem as causas da simpatia entre vós e certos Espíritos que vos parecem estranhos".

" Uma vez que temos tido várias existências, a parentela remonta além da nossa existência atual" (4) e, como resultado, cada vez mais aumenta a afetividade entre as criaturas, sedimentando nelas os laços da fraternidade.

O que é fraternidade? É ter afeto por todos, considerando-os como irmãos; é o nome que se dá ao sentimento que une irmão a irmão. Palavra oriunda do latim: frater, tris - "irmão pelo sangue ou por aliança". Fraternizar, na real acepção da palavra, não é apenas comungar das mesmas ideias, dos mesmos ideais ou convicções, mas acima de tudo, respeitá-los.

A convocação da nossa época é mais para "atos de fraternidade" do que para "atos de beneficência". Se os primeiros existirem, com certeza os segundos serão consequências naturais.

No "mundo ético", a busca é a do bem comum e da fraternidade. No "mundo moralista" não há afetividade de irmãos; a busca é por se enquadrar nas leis sociais, que possuem um manto fictício de direitos humanos, mas que, quase sempre, constituem regras ou normas partidárias, cruéis e desumanas. A humanidade atual é mais moralista do que ética.

Hoje, muitos indivíduos estão presos à "robotização dos costumes". São excessivamente ajustados aos "hábitos impensados"; até realizam atos de caridade - colocam em prática os ensinos de Jesus -, sem perceber, porém, qual é o verdadeiro significado do amor fraterno.

São criaturas que utilizam constantemente a palavra fraternidade, nomeando as pessoas de "queridos irmãos". Todavia, não possuem a convicção real de que, quando um ser humano chama o outro de irmão, é porque já validou em si mesmo um senso de valor segundo o qual o bem coletivo e o progresso da humanidade estão acima da religião que professa.

Os seres que desenvolveram uma afetividade fraternal aprenderam que a humanidade inteira faz parte de um todo interligado, regido por uma só lei, natural ou divina. No entanto, nada os impede de cooperar fraternalmente com toda e qualquer pessoa do planeta, pois têm plena compreensão da maneira pela qual as raças e os povos vivem e entendem a religiosidade. Sabem que há inúmeros meios de ver a realidade - nós próprios, as outras pessoas, o Universo, a vida e Deus. Por isso, aceitam de forma pacífica as diferenças.

Reconheceram que cada um de nós vê parte da verdade diante do Universo, e que todos nós temos uma "visão de mundo" proporcionalmente reduzida ao tamanho da nossa cegueira espiritual ou distorção da realidade.

Na ética ou na fraternidade, a vida social do planeta se transforma numa melodia executada por muitos instrumentos afinados na mesma tonalidade; todos vibram em conjunto, embora uma só música seja tocada.

1. Questão 776 de "O Livro dos Espíritos"

2. Questão 621 de "O Livro dos Espíritos"

3. João, 4:24

4. Questão 204 - Uma vez que temos tido várias existências, a parentela remonta além da nossa existência atual?

"Não pode ser de outra forma. A sucessão das existências corporais estabelece entre os Espíritos laços que remontam às existências anteriores. Daí, muitas vezes, decorrem as causas da simpatia entre vós e certos Espíritos que vos parecem estranhos."

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Afetividade - Parte 1

Livro: Os Prazeres da Alma 
Autor Espiritual: Hammed

Capítulo 5

Amar não significa esperar que alguém nos satisfaça todos os anseios e necessidades que cabe só a nós satisfazer.

Das formas míticas poderemos retirar a sabedoria dos séculos, porquanto tais histórias promovem encontros com as figuras arquetípicas de nossa alma e com o caminho do desenvolvimento do amor. Da Antiga Grécia nasceu a ideia das metades eternas, que percorreu a vastidão dos tempos.

A mitologia greco-romana nos transmite, por meio de autores da Antiguidade, a seguinte história: "Em uma diferente civilização, os seres possuíam duas cabeças, quatro braços e pernas e dois corpos distintos — masculino e feminino - mas com apenas uma alma... Viviam em pleno amor e harmonia, e justamente esse equilíbrio provocou a inveja e a ira de alguns deuses do Olimpo. Enfurecidos, enviaram àquela civilização uma tormenta repleta de trovões e relâmpagos, que dividiram os corpos, separando a parte feminina da masculina e repartindo a alma ao meio... Diz a lenda que até hoje os seres lutam na busca de sua outra metade, a sua alma gêmea."

Durante séculos, essa crença foi cultivada, e grande parte da humanidade ainda procura ansiosamente encontrar sua "alma afim". No entanto, com a Nova Revelação, vêm os Espíritos superiores esclarecer-nos a respeito do conceito das metades eternas, ensinando-nos que essa expressão é inexata e que não existe união particular e fatal entre duas almas.

Explicam-nos os Benfeitores que não há alianças predestinadas, e sim que, quanto mais iluminadas as almas, mais unidas serão pelos laços do amor real. Em vista disso, podemos entender perfeitamente o significado das palavras de Jesus Cristo: "Haverá um só rebanho, um só pastor." (1)

Um dia todos estaremos juntos, reunidos e plenificados uns com os outros em "um só rebanho".

O Espiritismo vai mais além quando nos explica que a nossa mentalidade sobre as almas gêmeas é exclusivamente alicerçada sobre uma visão romântica de união afetiva; na realidade, antes de sermos homens ou mulheres, somos Espíritos imortais vivendo temporariamente na Terra. Muitos possuem uma compreensão difusa e narcisista sobre o amor, o que faz com que interpretem sua afetividade somente abaixo da cintura, isto é, não conseguem desenvolver seus sentimentos, abandonando-os a um permanente estado embrionário.

"(...) não existe união particular e fatal entre duas almas. A união existe entre todos os Espíritos, mas em graus diferentes segundo a categoria que ocupam, quer dizer, segundo a perfeição que adquiriram: quanto mais perfeitos, mais unidos (...)" (2)

Estamos vivenciando inúmeras experiências terrenas com as mais diversas criaturas; conhecendo e, ao mesmo tempo, estreitando elos afetivos com outras tantas através de várias encarnações. Então, por que alimentarmos a ideia da busca ilusória de uma pessoa predeterminada, com a qual fatalmente viveríamos felizes pela eternidade juntamente com os outros tantos milhares de pares eternos que já se teriam encontrado anteriormente? Tudo isso mais se assemelha a um egotismo do amor, contrário à fraternidade cristã, que nos ensina que um dia todos se amarão de forma incondicional.

Os aspectos do amor não podem ser vistos como se nosso "eu" seja o único referencial e que qualquer coisa que não se enquadre em nosso modo de ser seja rotulada de desamor ou de "não ser nossa metade eterna".

Enquanto estivermos pensando dessa maneira, não amaremos verdadeiramente; estaremos, sim, criando uma "idealização amorosa", na ânsia de que os outros jamais ousem discordar de nosso ponto de vista. Em outras palavras, se alguém divergir da nossa opinião, teremos a certeza de que não é nossa "alma gêmea" e, por consequência, nunca poderá nos proporcionar o amor real, o que será um grande equívoco.

Amar não significa esperar que alguém nos satisfaça todos os anseios e necessidades que cabe só a nós satisfazer.

1. João, 10:16

2. Questão 298 - As almas que deverão se unir estão predestinadas a essa união, desde a sua origem e cada um de nós tem, em alguma parte do Universo, sua metade à qual se reunirá fatalmente, um dia?

Não; não existe união particular e fatal entre duas almas. A união existe entre todos os Espíritos, mas em graus diferentes segundo a categoria que ocupam, quer dizer, segundo a perfeição que adquiriram: quanto mais perfeitos, mais unidos. Da discórdia nascem todos os males humanos; da concórdia resulta felicidade completa."

terça-feira, 18 de maio de 2021

Paciência - Parte 2

Livro: Os Prazeres da Alma 
Autor Espiritual: Hammed

Capítulo 4

O despertar da religiosidade proporciona a paz de espírito. Paciência é um estado de alma em que a criatura não é atingida pelas inquietações ou irritabilidades, visto que se libertou do desassossego e da agitação do ego.

Quem atingiu a essência do sagrado entendeu que a autêntica religião é, acima de tudo, uma "realidade interna", porque expressa as nossas mais íntimas relações com Deus.

O despertar da religiosidade proporciona a paz de espírito. Paciência é um estado de alma em que a criatura não é atingida pelas inquietações ou irritabilidades, visto que se libertou do desassossego e da agitação do ego.

Carl Gustav Jung desenvolveu uma teoria fascinante, uma análise notável que contribui efetivamente para aperfeiçoar o comportamento e pensamento humanos. 

Desde a infância, ele foi influenciado de forma marcante por questões religiosas e espirituais, porquanto seu pai e vários parentes eram pastores luteranos. Estudou e investigou profundamente a natureza humana, dedicando-se também à análise das filosofias orientais e da mitologia.

Jung é considerado um sábio instrutor; estudou medicina, mas jamais abandonou o compromisso de manter o interesse pelos fenômenos psíquicos e pelas ciências naturais e humanas. Foi um psiquiatra por excelência, um missionário que pesquisou os "distúrbios da personalidade", contribuindo para o entendimento dos diversos aspectos do comportamento humano e colaborando para o crescimento e enriquecimento das criaturas em sua trajetória de iluminação individual.

Dr. Carl Jung, como todo indivíduo que utiliza a lógica, a coerência e a razão, sentiu-se distanciado da devoção religiosa alicerçada no pietismo - afirmação da superioridade da fé sobre a razão. Afastou-se das experiências teológicas e das prescrições litúrgicas de seu pai e de outros parentes, que preconizavam a permanência incondicional pela letra da convenção (1) e foi em busca do Espírito de Deus como uma realidade viva (2).

A religião vai muito além dos limites do intelecto, no entanto não o refuta nem o contesta. A genuína religiosidade não se vincula a nenhuma organização externa; ela nos remete ao despertar íntimo, ao relacionamento com a própria alma.

Da mesma forma, Allan Kardec, como homem de ciência que era, educado em Yverdon, na Escola de Johann Heinrich Pestalozzi - célebre pedagogo suíço e discípulo de Jean-Jacques Rousseau -, asseverou: "(...) não há fé inquebrantável senão aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade". "(...) para crer, não basta ver, é preciso, sobretudo, compreender. A fé cega não é mais deste século; ora, é precisamente o dogma da fé cega que faz hoje o maior número de incrédulos, porque quer se impor e exige a abdicação de uma das mais preciosas prerrogativas do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio" (3).

Por isso, o Espiritismo "não tem a pretensão de ter a última palavra sobre todas as coisas, mesmo sobre aquelas que são da sua competência" (4).

Os Guias da Humanidade disseram a Kardec que "(...) não há para o estudioso, nenhum sistema filosófico antigo, nenhuma tradição, nenhuma religião a negligenciar, porque tudo contém os germes de grandes verdades (...) graças à chave que nos dá o Espiritismo para uma multidão de coisas que puderam, até aqui, vos parecer sem razão e da qual, hoje, a realidade vos é demonstrada de maneira irrecusável" (5).

Para Jung, toda criatura traz uma aptidão para a autotransformação, o que ele chamou de individuação, e definiu-a como um processo de desenvolvimento pessoal em que a criatura se torna uma personalidade unificada, ou seja, um indivíduo, um ser humano indiviso e integrado.

A individuação está inteiramente voltada para o equilíbrio entre o ego (centro da consciência) e o Self (centro da psique) e para o aprimoramento e interação constante e criativa entre eles.

As criaturas ligadas excessivamente ao sistema ilusório do ego são afeitas a um zelo religioso obsessivo que pode levá-las aos extremos da intolerância. Possuem uma fé cega, o hábito de polemizar com exaltação, visto serem impacientes e inquietas. Exageradamente ajustadas a uma vida "impecável", denominam-se "pessoas de hábito". Estão presas a este padrão de pensamento: "Só eu sei como as coisas são ou devem ser feitas."

O fanatismo é filho dileto do ego; é uma adesão cega a uma ideia, sistema ou doutrina. Os fanáticos se irritam facilmente com tudo aquilo que possa ser contrário ao que eles consideram tradicional, imutável e verdadeiro, defendendo um status quo rigoroso quanto à política, à sociedade e à religião.

Religiosos intransigentes, são considerados pessoas dogmáticas. Exigem de si mesmos e dos outros uma vida puritana e de retidão extremada como forma de compensar suas dúvidas indecorosas e seus desejos reprimidos, que eles cultivam, de forma inconsciente ou não, no próprio mundo interior. Baseiam sua maneira de agir em teorias e estudos arcaicos e seguem modelos e padrões obsoletos. São observadores literais de leis consideradas como certas e indiscutíveis, e esperam que as pessoas as aceitem sem qualquer questionamento.

Os indivíduos que estão conectados com o Self vivem as necessidades do presente e respondem a elas através de uma análise criteriosa das pessoas, dos fatos e dos acontecimentos. Utilizam-se do exame paciencioso e da reflexão sapiencial da consciência para elaborar cogitações sobre a vida e sobre si mesmos.

Por estarem mais sintonizados com o Self, conquistaram a fé raciocinada e alicerçada na paz de espírito, na razão e na coerência.

Têm como forma de procedimento respeito aos direitos humanos - de liberdade de expressão, de individualidade, de ir e vir, de intelectualidade, de consciência; enfim, os direitos considerados inerentes ao homem como ser social,  independentemente de raça, país, sexo, idade e religião.

São pensadores versáteis e originais; têm propósitos definidos - buscam alcançar pacienciosamente em seus estudos e reflexões uma síntese racional e lógica a respeito do físico e do espiritual, do real e do imaginário, do indivíduo e da sociedade.

1. II Coríntios, 3:6

2. João, 4:24

3. "O Evangelho Segundo o Espiritismo", capítulo 19, item 7

4. "A Gênese", capítulo 13, item 8

5. Questão 628 - Por que a verdade não foi sempre colocada ao alcance de todo mundo?

"É preciso que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: é preciso nos habituar a ela, pouco a pouco, de outra forma ela nos deslumbra.

Jamais ocorreu que Deus permitisse ao homem receber comunicações tão completas e tão instrutivas como as que lhe é dado receber hoje. Havia, como sabeis, na Antiguidade, alguns indivíduos possuidores do que consideravam uma ciência sacra, e da qual faziam mistério aos profanos, segundo eles. Deveis compreender, com o que conheceis das leis que regem esses fenômenos, que eles não recebiam senão algumas verdades esparsas no meio de um conjunto equívoco e a maior parte do tempo simbólico. Entretanto, não há para o estudioso, nenhum sistema filosófico antigo, nenhuma tradição, nenhuma religião a negligenciar, porque tudo contém os germes de grandes verdades que, ainda que pareçam contraditórias umas com as outras, esparsas que estão no meio de acessórios sem fundamentos, são muito fáceis de coordenar, graças à chave que nos dá o Espiritismo para uma multidão de coisas que puderam, até aqui, vos parecer sem razão e da qual, hoje, a realidade vos é demonstrada de maneira irrecusável. Não negligencieis, portanto, de haurir objetos de estudos nesses materiais; eles são muito ricos e podem contribuir poderosamente para a vossa instrução."